quinta-feira, 15 de setembro de 2016

[RESENHA] Adeus ao Trabalho? Ensaio Sobre as Metamorfoses e a Centralidade do Mundo do Trabalho


Em seu livro, Adeus ao Trabalho?: Ensaio Sobre as Metamorfoses e a Centralidade do Mundo do Trabalho, Ricardo Antunes apresenta um debate riquíssimo sobre a importância do trabalho, mostrando alguns elementos que evidenciam os problemas vivenciados pelo mundo do trabalho, na tentativa de encontrar uma saída para a chamada crise da “sociedade do trabalho”. 
O livro Adeus ao Trabalho?: Ensaio Sobre as Metamorfoses e a Centralidade do Mundo do Trabalho, está dividido em quatro partes, assim denominado: (1) Fordismo, Toyotismo e Acumulação Flexível; (2) As Metamorfoses no Mundo do Trabalho; (3) Dimensões da Crise Contemporânea do Sindicalismo: Impasses e Desafios; (4) Qual Crise da Sociedade do Trabalho. O objetivo principal é oferecer algumas indicações relacionadas às questões que dizem respeito às transformações em curso no mundo do trabalho.
A Primeira Parte – “Fordismo, Toyotismo e Acumulação Flexível” – trata das transformações vivenciadas pelo mundo do trabalho, e, a necessidade do capitalismo de adequar-se as mudanças ocorridas no mercado produtivo. RICARDO aponta as consequências acarretadas pelos “processos de trabalho”, dando ênfase ao Fordismo e ao Toyotismo, que causaram grande impacto na organização capitalista da sociedade, além de colocar em discussão as experiências da chamada Acumulação Flexível, cuja tese é oferecida por Harvey, e analisa o significado e os contornos das transformações sofridas pelo capitalismo. Essas transformações afetam diretamente o universo operário, na medida em que o desemprego torna-se resultado da crise do capitalismo.
A Segunda Parte – “As Metamorfoses no Mundo do Trabalho” – mostra como a organização capitalista da sociedade adquire novas estruturas diante uma serie de tendências processuais no mundo do trabalho. RICARDO enfatiza a “sociedade de serviços”, cujo crescimento relativamente absoluto, caracterizou o desenvolvimento das sociedades ocidentais altamente industrializadas. A partir de reflexões marxistas, o autor deixa claro que enquanto existir o modo de produção capitalista, não pode haver a eliminação do trabalho. O autor também salienta a incorporação do trabalho feminino no mundo produtivo, além da expressiva expansão e ampliação da classe trabalhadora, através do assalariamento do setor de serviços.
A Terceira Parte – “Dimensões da Crise Contemporânea do Sindicalismo: Impasses e Desafios” – diz respeito à crise contemporânea dos sindicatos, onde a relação entre o número de sindicalizados e a população assalariada, tem decrescido, aumentando o abismo social no interior da própria classe trabalhadora. Consequentemente, essas transformações no âmbito sindical, afetaram também as ações e práticas de greves, atingindo fortemente o movimento sindical. Em vista disso, destaca-se maior expressão dos movimentos sindicais alternativos, que questionam as ações eminentemente “defensivas”, praticadas pelo sindicalismo tradicional, que se limita à ação dentro da Ordem.     
A Quarta Parte – “Qual Crise da Sociedade do Trabalho?” – RICARDO aponta algumas “teses”, de modo a oferecer conclusões relacionadas aos temas desenvolvidos ao longo do livro. São oferecidas cinco teses a serem discutidas. Destacam-se as reflexões teóricas acerca da questão atual da distinção marxiana entre “trabalho abstrato” e “trabalho concreto”, entre outras.
Diante do caráter mundializado e globalizado do capital, é necessário assimilar as peculiaridades e características presentes nos confrontos entre as classes sociais. O sindicalismo, enquanto organismo representativo dos trabalhadores, deverá ser capaz de impedir o seu desaparecimento diante dos inúmeros desafios, mas o caminho trilhado é, por certo, desgastante.
Este livro é recomendado para os profissionais de administração, ciências contábeis e economia, pois expõe os “processos produtivos de trabalho”, a fim de percebermos como funciona a evolução do capitalismo, em busca de caminhos constritivos para superar um problema de difícil solução: a crise trabalhista. 


REFERÊNCIA:

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho?: ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 9ª edição. São Paulo: Cortez; Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 2003.


Resenhado por Elizeu de Andrade

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O POETA ENTRE O CÉU E O INFERNO (GREGÓRIO DE MATOS): ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO


O Poeta Entre o Céu e o Inferno
(Gregório de Matos)


A vós correndo vou, braços sagrados,                       
Nessa cruz sacrossanta descobertos,                           
Que, para receber-me, estais abertos,                        
E, por não castigar-me, estais cravados.                   

A vós, divinos olhos, eclipsados                                
De tanto sangue e lágrimas cobertos,                       
Pois, para perdoar-me, estais despertos,                                      
E, por não condenar-me, estais fechados.                 

A vós, pregados pés, por não deixar-me,                  
A vós, sangue vertido, pra ungir-me,                        
A vós, cabeça baixa, para chamar-me.                     
           
A vós, lado patente, quero unir-me,                          
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,                   
Para ficar unido, atado e firme.                                 



DECOMPOSIÇÃO DOS VERSOS EM SÍLABAS POÉTICAS



A / vós / co / rren / do / VOU, / bra / ços / sa / GRA / (dos),          
1      2     3     4      5       6        7      8      9      10
Ne / ssa / cruz / sa / cro / SSAN / ta / des / co / BER / (tos),           
1       2       3      4      5       6       7     8      9      10
Que, / pa / ra / re / ce / BER / -me, es / tais / a / BER / (tos),         
   1      2     3    4    5      6            7        8     9    10
E, / por / não / cas / ti / GAR / -me, es / tais / cra / VA / (dos).        
1      2       3      4    5      6          7         8      9      10

A / vós, / di / vi / nos / O / lhos, / e / clip / SA / (dos)                     
1      2     3    4      5    6     7      8     9      10
De / tan / to / san / gue e / / gri / mas / co / BER / (tos),             
 1      2     3     4        5        6    7       8      9     10
Pois, / pa / ra / per / do / AR / -me, es / tais / des / PER / (tos),        
  1       2     3     4     5       6         7        8      9       10
E, / por / não / con / de / NAR / -me, es / tais / fe / CHA / (dos).      
1      2       3      4     5       6           7        8      9      10

A / vós, / pre / ga / dos / PÉS, / por / não / dei / XAR / -(me),          
1     2        3      4     5      6        7      8       9      10
A / vós, / san / gue / ver / TI / do, / pra / un / GIR / -(me),              
1     2        3      4      5      6     7     8      9     10
A / vós, / ca / be / ça / BAI / xa, / pra / cha / MAR / -(me).              
1      2       3    4     5     6      7       8      9       10

A / vós, / la / do / pa / TEN / te, / que / ro u / NIR / -(me),              
1      2     3     4     5     6       7      8        9     10
A / vós, / cra / vos / pre / CIO / sos, / que / ro a / TAR / -(me),       
1      2       3      4      5       6      7       8       9      10 
Pa / ra / fi / car / u / NI / do, a / ta / do e / FIR / (me).                     
1     2    3    4     5    6      7       8      9      10


ESQUEMA RÍTMICO


E.R. 10 (6-10) - (A)
 E.R. 10 (6-10) - (B)
 E.R. 10 (6-10) - (B)
 E.R. 10 (6-10) - (A)

 E.R. 10 (6-10) - (A)
 E.R. 10 (6-10) - (B)
 E.R. 10 (6-10) - (B)
 E.R. 10 (6-10) - (A)

 E.R. 10 (6-10) - (C)
 E.R. 10 (6-10) - (C)
 E.R. 10 (6-10) - (C)

 E.R. 10 (6-10) - (C)
 E.R. 10 (6-10) - (C)
 E.R. 10 (6-10) - (C)



O poema é um soneto italiano constituído por dois quartetos e dois tercetos.
Todos os versos são decassílabos heroicos.
O poema completo é isométrico, ou seja, possui versos com tamanhos iguais.
Todos as estrofes são isorrítmicas, ou seja, possui rimas iguais.  
Os versos possuem rimas externas e rimas consoantes.    



ANÁLISE  E  INTERPRETAÇÃO


            Na arte Barroca, a imagem do Cristo sofredor é muito mais comum do que a imagem do Cristo vitorioso. Representa-se mais a dimensão humana de Cristo, – as    marcas de seu sofrimento como homem – do  que sua dimensão divina – a  sua vitória sobre a morte, como Filho de Deus. Essa imagem do sofrimento físico causa um grande impacto e envolve emocionalmente as pessoas, e esse é um dos objetivos principais do artista barroco.
            No soneto de Gregório de Matos, vemos que o eu lírico volta-se exatamente para o corpo crucificado de Cristo, descrevendo suas feridas e as marcas de seu martírio. Mas é esse sofrimento físico a garantia da salvação da alma que ele busca, pois, segundo a fé católica na época, o sangue de Cristo foi derramado, para salvar o homem pecador. 
            Observe que o eu lírico, na medida em que descreve o corpo de Cristo, revela o valor espiritual e resgatável do sofrimento físico. Ao analisar o primeiro quarteto, vemos que os braços estão abertos para amparar e proteger o pecador, mas estão “pregados” para não castigar. Analisando agora o segundo quarteto, notamos que os olhos, “encobertos” de sangue e lágrimas, estão abertos para perdoar, mas fechados para não castigar. No primeiro terceto, observamos que os pés pregados reforçam a ideia de sofrimento ao mesmo tempo em que sugerem que Cristo não abandonará o pecador. O sangue “derramado” ganha o valor simbólico do sacrifício que salvará e abençoará a humanidade. A cabeça baixa que revela o fim das forças físicas é vista como uma atitude de amor, pois Cristo abaixa os olhos para chamar-lhe o pecador. No último terceto, o desejo de união espiritual com Cristo é representado pelo desejo de união física. O eu lírico quer ficar pregado na cruz junto com o próprio Cristo.
            Neste poema, há a repetição da mesma palavra: “A vós”. Como acontece sempre na mesma posição, recebe o nome de anáfora. O eu lírico dirige-se a muitas pessoas, e no caso, ele refere-se à própria humanidade pecadora.  Também há repetições de outras palavras: estais, quero e para. Tudo isso mantêm a sonoridade do poema, tornando-o mais sugestivo.      
           Há no poema, uma grande dramaticidade, pois o eu lírico expressa a consciência do pecado e o desejo da salvação. Essa hesitação que revela a dimensão carnal e espiritual do homem é uma das características marcantes da literatura barroca.  
           

Por Max Moreira


sexta-feira, 22 de maio de 2015

[ENSAIO ANALÍTICO] AMOR DE PERDIÇÃO


                Amor de Perdição, nitidamente, mostra seus traços típicos do ultrarromantismo português, a começar pelo invencível amor de Simão e Tereza, que é uma característica marcante deste romance. As atitudes dos personagens são sempre movidas por impulsos que sempre atropelam a razão, e esse comportamento exacerbado define muito bem o romântico.
            Camilo baseia a história de Amor de Perdição em documentos verídicos encontrados na cadeia da Relação do Porto, quando ali esteve preso, de 1860 a 1861, acusado de adultério com Ana Plácido, crime então punido pelas leis nacionais. No entanto, independentemente disso, a veracidade da trama não é comprometida porque uma obra literária existe por si só, não importando a origem da história que o autor irá narrar, desde que contenha elementos característicos de um verdadeiro trabalho artístico. Para efeito de conhecimento, Camilo seria filho de Manuel Botelho, irmão do problemático “herói” de Amor de Perdição, Simão Botelho.  
Breve Histórico da Obra: Simão e Tereza são vizinhos. Ele tem 17 anos e ela, 15. Apaixonam-se profundamente, mas suas famílias são inimigas. Assim que ficam sabendo desse amor, as respectivas famílias – Botelho e Albuquerque – tomam providências para afastá-los. Simão é enviado para a cidade de Coimbra e Tereza é constrangida a aceitar casamento com o primo Baltasar. Como uma perfeita heroína romântica, Tereza se recusa a trair seu amor e prefere encerrar-se num convento. Simão volta para Viseu e recebe a ajuda do ferreiro João da Cruz e de sua filha Mariana. Porém, numa disputa com Baltasar, acaba matando-o. Simão é preso – na verdade, ele se entrega – e condenado à morte. Enquanto Tereza padece no convento, Simão tem sua pena de morte revogada e transformada em exílio, devendo embarcar para a Índia, onde deverá ficar dez anos. Mariana, que o ama, resolve dedicar-se a ele até o fim da vida e o acompanha na viagem. 
Simão, Tereza e Mariana, principal triângulo amoroso do romance, consideram o amor como a coisa mais importante da vida, em evidente oposição ao valor mais cultivado por Tadeu de Albuquerque, pai de Tereza, um nítido burguês: o dinheiro. A supervalorização do amor é a conseqüência mais imediata do sentimentalismo exacerbado do Romantismo. Perder o amor significa para os três perder o sentido da vida. Essa perda provoca basicamente três conseqüências: a loucura, a morte ou o suicídio, situações comuns nos desfechos de romances românticos. Mas, sobre essas conseqüências, daremos conta posteriormente mais adiante.
            Simão Botelho, revolucionário e idealista, sofreu grande transformação por causa de seu amor por Tereza. Simão almejava concretizar seu amor com ela. No entanto, revelou-se ser um rapaz pessimista em relação à sociedade e a si mesmo. Por ser incapaz de atingir seu principal objetivo, ao constatar a impossibilidade de realizá-lo, Simão é envolvido pela angústia, estado que caracteriza o mal-do-século. Procurando saídas para seus problemas, Simão desenvolve mecanismos de evasão da realidade, como, por exemplo, a busca do isolamento, da solidão.
            Tereza de Albuquerque, a mulher idealizada, também desenvolve um mecanismo de escapismo, só que bem mais radical que Simão: a espera ou a evocação da morte. Tereza encara a morte como uma bem-aventurança. O isolamento de Tereza no convento a torna melancólica e sofrida, o que explicaria sua aflição e conseqüente ânsia da morte. Tereza almeja, acima de tudo, montar um lar com Simão, mas como esse sonho torna-se impossível, ela entrega-se à atração da morte. Tereza representa a fragilidade da mulher romântica. Ela não consegue, em nenhum momento, livrar-se do seu destino destrutivo. Presa no convento pelo pai, o pessimismo toma conta de seu espírito, levando-a a considerar tudo como um mal, refugiando-se no sonho e no devaneio que são verdadeiros substitutos para a vida real.  
            Mariana, por sua vez, é o retrato do amor em sua plenitude. Dedicada, Mariana não mede esforços para “proteger” Simão, o seu grande amor. Mas, apesar da totalidade de seus sentimentos, Mariana não é correspondida por Simão, tornando-se extremamente solitária. Mesmo assim, Simão reconhece a sua determinação, tratando-a sempre com carinho e atenção. Outra grande característica da carismática Mariana é a atmosfera de mistério que ela cerca a todos. Mariana parece possuir um sexto sentido bastante aguçado, que a permite ter premonições que envolvem as pessoas que ela ama, principalmente Simão. O suposto dom da premonição de Mariana a torna uma personagem bastante intrigante, caindo logo nas graças dos leitores.
Baltasar Coutinho foi o empecilho na vida de Simão. Tadeu de Albuquerque queria casá-lo com sua filha não só para impedir que ela se envolvesse – mais ainda – com Simão, mas também para unir as riquezas de ambos. Talvez, Baltasar amasse realmente Tereza, mas do seu jeito. Baltazar subestimou seu rival e acabou deliberadamente vitimado pelo inescrupuloso Simão. O romance toma um rumo totalmente diferente a partir do capítulo X, onde a desgraça parece abraçar o destino de todos os envolvidos. No capítulo X, Simão comunica em uma carta de despedida, antes de matar Baltasar Coutinho: “Considero-te perdida, Tereza”. A desistência de Simão fica clara, e, a colocação da amada inacessível, típica do Romantismo, torna-se evidente nessas palavras.
 O destino envia o ferreiro João da Cruz, pai de Mariana, para ajudar Simão. Em troca dos favores prestados por Domingos Botelho, pai de Simão, João da Cruz ajuda-o em seguidas vezes. O ferreiro tinha grande estima pelo desgraçado Simão, tanto que ele teria muito “gosto” em vê-lo ao lado de sua filha. Mas, Simão jamais desistiria de seu grande amor, Tereza. Inesperadamente, no capítulo XVII, João da Cruz é literalmente assassinado por vingança pelo filho do recoveiro de Carção, chamado Bento Machado. A partir do momento em que Mariana fica sabendo do ocorrido, Simão passa a ser seu único refúgio, decidindo ficar com ele até o último dia de sua miserável vida.
Manuel Botelho, sempre foi o oposto de seu irmão, até o dia em que ele decidiu fugir com uma açoriana casada. Sua mãe sempre o apoiou mandando-lhe dinheiro para o seu sustento. Essa é uma das razões que explica porque Simão diz claramente “que sua mãe não o amava”, no capítulo VIII. Simão achava que sua mãe não se preocupava com ele, tendo pelo filho apenas um sentimento de obrigação.  
Voltemos a falar de Simão, Tereza e Mariana. O desejo de morte de Tereza é comum, tendo em vista seu desespero, ao encarar tristemente a impossibilidade de efetivar seu “amor eterno” por Simão, sendo incapaz de prosseguir vivendo, entregando-se a morte. Simão entrega-se também a morte, em face da desilusão de sua existência após saber da morte de sua amada Tereza, que assim como ela, morre definhado. Mariana não se conforma com a morte de seu amado Simão e comete suicídio se jogando ao mar. Este final faz jus ao Romantismo. Todos tiveram um fim trágico, sendo uma característica digna desse estilo de época.
Enfim, a trágica história de dois jovens que se apaixonam, mas não podem se unir porque pertencem a famílias que se odeiam, Amor de Perdição tinha tudo para emocionar – ainda mais – os leitores e garantir vida longa ao livro, porém, o tema, em si, não é novo, pois afinal, para citar apenas um exemplo famoso, Shakespeare, que foi um precursor Romântico, já tinha usado essa idéia na peça Romeu e Julieta, no século XVI, hoje, um clássico da literatura mundial.

BIBLIOGRAFIA

BRANCO, Camilo Castelo. Amor de Perdição. 3ª ed. São Paulo: FTD, 1996. (Coleção grandes leituras).      


Por Max Moreira

domingo, 8 de fevereiro de 2015

CARACTERIZAÇÃO DO PERSONAGEM 'FABIANO' – VIDAS SECAS (GRACILIANO RAMOS)



        Fabiano é um homem bruto e rude, porém capaz de analisar a si mesmo. Ele tem consciência de que mal sabe falar, mas admira os que sabem se expressar, como por exemplo, Seu Tomás da Bolandeira, seu ex-patrão. Este fragmento deixa bem claro as limitações de Fabiano: "Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas” (p. 20).O próprio Fabiano chega à conclusão de que não passa de um bicho. Vejamos o trecho seguinte: “– Você é um bicho, Fabiano” (p. 18). Esta é uma frase de animalização, dita por Fabiano a si próprio, já que ele conseguia sobreviver à seca e se orgulhava disso. Vejamos este outro fragmento para reforçar o que foi dito até aqui: “Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades” (p. 18). 
         Fabiano é um homem humilhado pela sociedade a que pertence, sendo que ele não consegue fugir de sua condição de animalização imposta pela estrutura social. Talvez seja por isso que Fabiano sente-se um homem inferior diante das outras pessoas. Ele se sente inferior diante de pessoas como Seu Tomás da Bolandeira que possui um status econômico elevado, além de ser um homem extremamente culto. Seu Tomás é sempre referência na vida de Fabiano e de sua família. Por exemplo, Fabiano sempre utiliza palavras difíceis a fim de imitar seu ex-patrão, com o intuito de parecer “sabido”. Este fragmento comprova muito bem isso: “Em horas de maluqueira, Fabiano desejava imitá-lo [seu Tomás da bolandeira]: dizia palavras difíceis, truncando tudo, e convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo” (p. 22). No entanto, nem mesmo sua família consegue entender suas palavras, porém, apenas Sinhá Vitória consegue entendê-lo, aconselhando-o por diversas vezes. Já o Soldado Amarelo representa para Fabiano a força do Governo a qual não se pode vencer. Fabiano, mesmo sendo preso injustamente pelo Soldado Amarelo, não consegue se vingar dele quando teve a chance, simplesmente por respeitar o posto de representante do Governo. Isso fica evidente neste trecho: “Viu apenas que estava ali um inimigo. De repente notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave, uma autoridade (grifo meu). Sentiu um choque violento, deteve-se, o braço ficou irresoluto, bambo, inclinando-se para um lado e para outro” (p.100). Diante deste panorama, podemos concluir que não é só a seca que embrutece o retirante sertanejo, mas também as injustiças cometidas pelas autoridades. 
         Fabiano é honesto, e como ele não é um homem instruído, acaba sendo vítima da corrupção. Exemplo disso, é que Sinhá Vitória descobre que o patrão atual “rouba” nas contas do marido. Nota-se que Sinhá Vitória é bem esperta e o próprio Fabiano admite isso em algumas passagens. Vejamos este trecho: “Não se conformou. Devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo” (p. 93). Fabiano é um homem que, apesar de embrutecido, apresenta uma certa resistência a sua condição de animalização e, às vezes, consegue ser capaz de demonstrar sentimentos de humanização. O sentimento de culpa por matar a cachorra Baleia não o deixa. Vejamos este fragmento: "Chegou-se a sua casa, com medo. Ia escurecendo e àquela hora ele sentia sempre uns vagos terrores. Ultimamente vivia esmorecido, mofino, porque as desgraças eram muitas. Precisava consultar Sinhá Vitória, combinar a viagem, livrar-se das arribações, explicar-se, convencer-se de que não praticara uma injustiça matando a cachorra. Necessário abandonar aqueles lugares amaldiçoados. Sinhá Vitória pensaria como ele” (pp. 114-115). 
        Percebe-se que Fabiano, por diversas vezes, tenta enganar-se a si mesmo em seus devaneios. Vejamos o trecho que se segue: “Fabiano contava façanhas. Começava moderadamente, mas excitara-se pouco a pouco e agora via os acontecimentos com exagero e otimismo, estava convencido de que praticara feitos notáveis. Necessitava esta convicção” (p. 66). No entanto, as aspirações de Fabiano são sempre frustradas pela sua triste condição diante da miséria e das injustiças que o cercam. O fantasma da seca sempre assombra o espírito de Fabiano. A inquietação é constante. Podemos verificar isso no seguinte trecho: “(...) e Fabiano senti-a [a seca] de longe. Senti-a como se ela já tivesse chegado, experimentava adiantadamente a fome, a sede, as fadigas imensas das retiradas” (p.112). Mesmo assim, Fabiano não consegue abandonar seus sonhos e desejos mais íntimos, assim como sua mulher, Sinhá Vitória. Apesar de Fabiano não conseguir se expressar da forma com ele almeja, ele tenta exteriorizar seus sentimentos e anseios, porém se decepciona por não ser capaz de ser compreendido, e, também, de não poder fazer nada para mudar sua triste realidade. Apenas Sinhá Vitória consegue compreender seus anseios, o que acaba sendo um conforto para ele. Fabiano tem consciência de sua limitação e teme ir além por ser totalmente dependente de seu patrão. O trecho seguinte retrata bem as razões que impedem Fabiano de ir além de sua pretensão: “(...) Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. (...) era bom pensar no futuro, criar juízo” (p.92). 
       Fabiano julga-se um cabra que serve apenas para cuidar das coisas dos outros. Podemos constatar com este trecho: “(...) E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. (...); mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra” (p. 18). Por isso, não consegue pensar diferente, apesar dos anseios, por possuir um sentimento de inferioridade. Esse trecho deixa claro o que foi dito anteriormente: “Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior” (p.76).
    Fabiano sempre questiona sua condição miserável e tenta encontrar uma explicação para sua desgraça. O fragmento seguinte nos dá uma idéia disso: “(...) Por que não haveriam de ser gente, possuir uma cama igual à de seu Tomás da bolandeira? (...) Por que haveriam de ser sempre desgraçados, fugindo no mato como bichos? Com certeza existiam no mundo coisas extraordinárias. Podiam viver escondidos, como bichos?” (p.121). Para reforçar, vamos acompanhar outra passagem que mostra Fabiano questionando as coisas ruins que acontecem com ele: “(...) Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!” (p.93).  
         Para finalizar, podemos dizer que Fabiano e sua família vivem um misto de sonho, frustração e descrença. Este fragmento retrata de forma fantástica a afirmação anterior: "E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer? Retardaram-se, temerosos. Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinhá Vitória e os dois meninos” (p. 126).
           


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Posfácio de Álvaro Lins, ilustrações de Aldemir Martins – 93ª Edição – Rio, São Paulo: Record, 2004.


Por Max Moreira

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Bullying - Um Problema Também Familiar




Ultimamente, fala-se muito de bullying. De vez em quando, vejo nos Jornais televisivos alguma notícia relacionada aos atos de bullying. As cenas sempre são chocantes e repugnantes. Lembro-me de um vídeo que mostrava um grupo de jovens espancando brutalmente uma colega de escola simplesmente porque a menina se recusara a fumar um cigarro de maconha oferecido por um deles. Foi uma cena lamentável! Muitos se perguntam: como é possível alguém praticar atos de agressões físicas de forma tão irracional? Sem falar das violências verbais que são tão comuns nesses casos. E quando se fala de bullying, muitos acabam associando esses atos de violência gratuita apenas ao ambiente escolar, onde costuma acontecer os ataques dos chamados “bullies”. Enganam-se! O assédio pode acontecer em qualquer contexto no qual seres humanos interajam, tais como escolas, universidades, entre vizinhos, em locais de trabalho, e até mesmo nas famílias.
Isso mesmo Caro Leitor! Nas famílias! O bullying na família é uma realidade cada vez mais preocupante, e que, muitas vezes, passa despercebido por muitos. Os ataques de bullying podem acontecer das mais variadas formas, como por exemplo, quando um dos membros da família perde o emprego, e o restante dela passa a humilhá-lo. A violência verbal costuma ser mais comum no ambiente familiar, embora as agressões físicas não fiquem atrás nesse triste cenário. Posso citar como exemplo um caso que escutei certa vez: um irmão, mais velho, batia no irmão menor para que este o respeitasse.
Existe outra questão que faz toda a diferença no desenvolvimento dos filhos, e que, em muitos casos, está completamente ausente: é o apoio familiar. Muitas vezes, os pais não aceitam o fato de o filho escolher um caminho que eles não aprovam. Posso citar o seguinte exemplo: o filho larga o curso de Medicina por falta de afinidade, pois ele quer estudar Ciências da Computação; O filho passa a ser criticado pelos pais que não aceitam a decisão do filho. Este, por sua vez, fica deprimido, pois não tem apoio familiar; Os pais querem que seu filho siga o caminho que Eles determinaram; O filho, pressionado, continua no curso de Medicina, adquirindo grandes chances de tornar-se uma pessoa infeliz. Casos assim costumam acontecer com muitas famílias, e poucas pessoas, ao buscarem seus próprios caminhos, conseguem enfrentar aquilo que é, muitas vezes, imposto pelos pais. 
O ambiente familiar é apenas a porta de entrada para o convívio em sociedade. E claro, todo esse cenário acaba refletindo direta ou indiretamente na vida do indivíduo, tanto na vida escolar, quanto na vida profissional. E por falar em vida escolar, não podemos nos esquecer de que é no ambiente escolar que ocorre grande parte dos casos de bullying, embora não seja o único lugar em que isso ocorra. E o bullying não é praticado apenas por alunos, como muitos imaginam, mas por funcionários também, sejam eles professores ou não. Já escutei a respeito de um diretor que, em vez de convocar o aluno ou funcionário à diretoria para tratar de qualquer assunto que os envolva, simplesmente repreende qualquer um na frente de todos da forma mais humilhante possível, talvez na tentativa de impor sua autoridade, o que acaba sendo uma forma de intimidação. Muitos daqueles que sofrem o ato de bullying ficam calados, intimidados, com medo. Não fazem nada!
Em alguns casos, a falta de informação é um fator que impede que a pessoa vítima de bullying se defenda. Poucos sabem, por exemplo, que a responsabilidade pela prática de atos de assédio escolar pode se enquadrar no Código de Defesa do Consumidor, tendo em vista que as escolas prestam serviço aos consumidores e são responsáveis por atos de assédio escolar que ocorram nesse contexto.
            O bullying não pode mais ser encarado como um simples problema. Na verdade, o bullying é um problema mundial de natureza gravíssima, e que deve ser tratado como tal. É lamentável, mas essa é uma realidade cada vez mais alarmante em toda a sociedade, nas suas mais variadas esferas. As autoridades mundiais precisam ficar mais alertas quanto a isso e encontrar soluções plausíveis para esse problema tão preocupante, tratado por muitos como algo invisível. Mas as famílias também precisam encarar suas falhas, aprender a trocar a ameaça por gestos de apoio. Não podemos nos esquecer, pois, de que a família é à base da sociedade.

Por Max Moreira

sexta-feira, 2 de março de 2012

[CONTO] A GAROTA DE AMARELO


     Durante muito tempo, minha namorada perguntava por que eu sempre lhe mandava cartões em envelopes amarelos. Não que a cor amarela fosse a minha preferida, tão pouco a dela. Mas esta cor passou a ter um significado simbólico no nosso namoro. Até então, ela não sabia da história que existia por trás daqueles envelopes amarelos que tanto a intrigava. Quando contei, ela ficou chocada, sem acreditar.
Tudo começou em uma noite de maio de 200... durante uma festa em uma cidade vizinha. Eu fui com um amigo e ao chegar lá, decidimos ficar tomando uma cerveja esperando a festa começar. Nesse meio tempo, um conhecido nosso veio nos cumprimentar e, como ele estava sozinho, nos chamou para beber uísque na mesa dele. Foi o que fizemos. Instantes depois, três garotas passaram perto da gente. Uma delas, uma morena, chamou muito minha atenção, a ponto de querer conhecê-la. Perguntei ao nosso colega se ele a conhecia, e como obtive uma resposta positiva, pedi-o para apresentar-me a ela. Ele recusou-se, o que me deixou frustrado. Nosso colega de uísque não justificou de forma convincente a sua negativa (mais tarde o Destino trataria de revelar o porquê). Confesso que a forma como nosso colega de uísque desqualificou a garota me deixou intrigado. Ele não podia ou não queria me apresentar a ela? No entanto, apesar desse acontecimento, deixamos o assunto de lado, e fomos para a festa que tinha começado naquele instante. Pouco tempo depois, nosso colega de uísque desaparecera.
Em um dado momento da festa, fui surpreendido por uma moça, que me disse o seguinte:
– Minha amiga, aquela garota de amarelo, quer conversar com você. Parece que ela gostou de você! – disse a moça apontando para sua amiga que estava dançando alguns metros a nossa frente.
Naquele instante, eu não prestei atenção, e disse-lhe que conversaria com sua amiga depois. A verdade é que eu não tinha avistado-a, mas, mesmo assim, fiz de conta que sabia quem era. Eu ainda tentei procurar a tal garota de amarelo, mas não avistei ninguém, e, praticamente, esqueci-a.
– Ora, nessa festa, eu não vi ninguém de amarelo. Talvez ela tenha ido embora... Sei lá! – foi o que eu disse a mim mesmo depois.
A festa não estava legal, e eu já estava pensando em ir embora, quando meu amigo me passou uma informação que me deixou bastante interessado. Ele tinha avistado aquela morena que o nosso colega de uísque se recusara a me apresentar. Meu amigo, então, me disse o seguinte:
– Por que você não se apresenta a ela agora. Aproveita esta chance. Não custa nada tentar e se não der certo, não deu certo e pronto. “Vá lá!”.
Segui os conselhos de meu amigo. Eu estava bastante confiante, mas minhas expectativas foram frustradas quando avistei a morena abraçada com um sujeito. Descobri que era o namorado dela. Logo depois, eu procurei meu amigo para irmos embora, mas não o encontrei. Saí da festa para procurá-lo, sem sucesso. Decidi então entrar na festa novamente. Foi quando avistei uma garota de blusa amarela, e no mesmo instante, me lembrei do que a moça do começo da festa me disse. Foi a garota mais linda que já vi. Ela estava acompanhada de outra garota, possivelmente sua amiga. Abordei-a imediatamente, e perguntei instintivamente:
– Era você que queria conversar comigo?
– Queem, eeu? – ela retrucou surpresa e assustada.
– Sim, você.
– Não, por quê? – ela respondeu ainda assustada.
Definitivamente, não era a garota de amarelo que queria conversar comigo no começo da festa. Apenas a sua blusa era amarela. Na tentativa de sair daquela situação constrangedora, continuei a conversar naturalmente com as meninas e, pouco tempo depois, meu amigo apareceu e apresentou-se para as garotas. Como gostei muito da garota da blusa amarela, fiquei conversando com ela, enquanto meu amigo ficou a conversar com a amiga dela. Quando meu amigo percebeu, eu e a garota da blusa amarela já tínhamos saído da festa. Daí para frente, percebi o quanto somos vítimas da teoria da relatividade de Einstein. A noite passou rapidamente, mas cada momento ficou gravado na minha mente, assim como uma escultura esculpida em pedra mármore. Ao fim da noite, eu e meu amigo conversávamos enquanto voltávamos para casa. Ele contou-me que descobriu algo realmente inesperado: a garota da blusa amarela que estava comigo era ex-namorada do nosso colega de uísque e irmã da primeira morena na qual fiquei interessado. Tudo fez sentido. Jamais imaginei algo assim. Meu amigo disse então:
– Você tomou o uísque e a namorada dele também.
Ao dizer isso, rimos muito de toda aquela situação. O fato é que eu e a garota da blusa amarela estamos juntos até hoje.
– Isso só prova que um pequeno detalhe faz a diferença. – ela disse.
Curiosamente, ainda hoje não sei quem é a tal garota de amarelo do começo da história.
Por Max Moreira
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