segunda-feira, 31 de maio de 2010

ANÁLISE DO FILME PINÓQUIO 3000


A princípio, percebe-se claramente que Pinóquio tem uma obsessão em ser “um menino de verdade”. No entanto, podemos questionar terminantemente o que existe por trás desta obsessão. Ora, o maior desafio moral de Pinóquio era justamente “ser como os outros”. Sendo assim, ele – Pinóquio – precisava ser “normal” para ser aceito socialmente. Não podemos nos esquecer que Pinóquio já “nasce” na condição de um menino de mais ou menos 10 anos de idade, mas com uma mente ainda em fase inicial. Desta forma, ele tinha que construir seu conhecimento a partir de suas experiências e, conseqüentemente, sua moral também evoluiria nesse processo. Não podemos nos esquecer que Pinóquio já nasce sabendo falar, e percebe-se também que ele já sabe ler (leitura de dados). O que Pinóquio ainda não tem é a consciência moral que irá determinar o que é “certo” e o que é “errado”. É este o desafio proposto pela fada em troca de torná-lo um menino de verdade.
Os requisitos necessários para Pinóquio conquistar a condição humana são justamente ser um bom filho e um bom menino, portanto, um menino normal, igual aos outros. Assim, ele teria que descobrir a diferença entre o certo e o errado para, só assim, conquistar a condição humana. Mas afinal, o que é ser um menino normal? Ou melhor, o que é certo e o que é errado? Essa é a questão. Pinóquio, inconscientemente e conscientemente, tinha a necessidade da aceitação social, já que ele era um “menino diferente”. Em outras palavras, Pinóquio acreditava que ser um menino normal era exatamente agir de acordo com as normas sociais estabelecidas pela sociedade. Aqui entraria a questão do preconceito, pois aquilo que é diferente é rejeitado simplesmente por não se adequar às normas padrões. Assim, o certo é definido pela sociedade, e todos tem que seguir, pelos menos a princípio. Foi isso que Pinóquio fez.
ESCOLA, para Pinóquio, não parecia ser algo tão importante assim. Isso porque ele estava mais interessado em aprender a respeito do mundo ao seu redor. Lembremos que Pinóquio já nasceu sabendo falar e ler, o que ele ainda não tinha era experiência de “leitura de mundo”. Tudo o que ele aprendia, memorizava em seu cérebro. Nesse sentido, tudo era novidade. Por isso a escola não era tão atraente para Pinóquio, pois, nesse âmbito, a escola não era prioridade. Sabemos que, socialmente, a escola representa a formação geral de um indivíduo, e que só através dela é possível adquirir cultura e um alto nível intelectual. Embora esse não fosse a maior preocupação de Pinóquio, ele insistia em ser um indivíduo, entre muitos. Percebe-se em Pinóquio um conflito constante que ele tenta resolver o tempo todo. Já INFÂNCIA vem a ser, para o menino-robô, segundo SOTERO, sinônimo de prazer. Para a autora, “durante as suas aventuras, Pinóquio não tem uma preocupação com o certo ou com o errado, ele sempre age de acordo com aquilo que lhe dá vontade, preocupando-se com a sua satisfação imediata”. À luz de Freud, podemos dizer que Pinóquio é ID puro. Já a VIDA ADULTA, para Pinóquio, é uma condição repleta de regras a serem seguidas e que as ignora completamente por não compreender ainda o significado de se conviver em sociedade.
Embora Pinóquio sempre se lembrasse das ordens de seu avô, o menino-robô apenas se preocupava consigo mesmo, sempre agindo conforme seus impulsos, que era mais forte que sua consciência moral. Pinóquio era bastante egocêntrico e acreditava que o mundo girava em torno dele, sendo desta forma completamente apático. Por isso, ele descumpriu as ordens de avô (pai). Pinóquio ainda não tinha consciência das conseqüências de seus atos.
O grande abismo que separava Pinóquio da Escola era a sua condição “maquinalizada” que o afastava da condição humana. SOTERO cita o livro Teoria da literatura: uma introdução, de Terry Eagleton, na qual afirma no capítulo que se refere à Psicanálise, que a civilização e, conseqüentemente, a nossa história social surgem quando o homem sai do seu autocentrismo e se preocupa com o meio em que vive (p. 02). Um exemplo claro em que Pinóquio se afasta da condição humana, é quando ele vai para o parque de diversões, no qual existem só jogos e diversões e não há escola nem estudo. É nesse fantástico lugar que todos são transformados em robôs, cuja conseqüência foi causada pelos atos impensados de Pinóquio.
“Ser gente” na perspectiva do mundo moderno desenhado no filme “é aquele ser capaz de viver em sociedade”. Parafraseando SOTERO, Pinóquio é “um robô com características humanas. Logo, nos remete a idéia do homem como máquina, que precisa ser construído, o homem aproximado a maquina que não se educa; chamando a atenção para a necessidade de culturalização”. Assim, podemos dizer que “é o ingresso no ‘ princípio da realidade’, é o escutar, que é muito importante quando se vive em sociedade, quando se sai de si mesmo. As aventuras de Pinóquio representam, nesse sentido, o desenvolvimento do processo de amadurecimento” (SOTERO, p. 4).
Segundo SOTERO, “embora Pinóquio tenha vida, ele não é uma pessoa (entendendo por pessoa, aquele ser capaz de viver em sociedade) e somente no fim da história, quando ele se ajusta ao princípio da realidade, então merece ser transformado em uma pessoa”. Desta forma, Pinóquio sai de seu egocentrismo e conquista a sua maturidade. O menino passa a se preocupar não mais só nele, e sim com os outros também. Isso se torna evidente quando Pinóquio percebe o erro de ter contribuído com as atitudes do Prefeito da cidade, e depois tenta reparar seu erro enfrentando seu adversário. Podemos concluir que o que assegurou o direito de Pinóquio conquistar a condição humana foi “a tentativa de vencer as atitudes impensadas provocadas pelo princípio do prazer, é o reconhecer-se dentro de um conjunto”.
A idéia principal do filme trata justamente da necessidade de o homem se libertar do estigma de “marionete”, saindo do seu egocentrismo e mirando àquilo que está a seu redor, tornando-se pessoa. Focaliza também o desenvolvimento moral da criança, mostrando a evolução de Pinóquio de acordo com os princípios de comportamento social definidos pela cultura.

ANEXO

“(...) um pedaço de madeira com características humanas. Logo, nos remete a idéia do homem como coisa, que precisa ser esculpido, o homem aproximado ao animal se não se educa; chamando a atenção para a necessidade de culturalização.” (p. 01)


BIBLIOGRAFIA

Pinóquio 3000. Infantil. Flashstar: Canadá/ França/ Espanha / 2004 - Aprox 80 min.

SOTERO, Alessandra Garrido. Pinóquio: do Princípio do Prazer ao Princípio da Realidade. Mestranda de Língua e Literatura Italiana – UFRJ.


Por Max Moreira

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